O
BANQUETE DA JUSTIÇA E SEUS CONVIDADOS
Primeira leitura ( Is 25,6-10a)
Esta
primeira
leitura pode causar surpresa para muitas pessoas: acostumadas a associar
religião com penitência, jejum, sacrifícios; eis que aqui se
fala de comer e beber. O Jesus dos evangelhos aparece muitas vezes
sentado à mesa com pecadores onde certamente rolava uma conversa solta: a chuva
que não chega, o desemprego, o campeonato, a opressão dos ricos sobre os
pobres, uma boa piada e, em meio a tudo um
bom vinho, símbolo da alegria. Porque será que a religião foi transformada em
algo sério e triste, enquanto a bíblia fala de festa? Jesus começou a sua vida
com um banquete (bodas de Caná) e terminou a sua vida com um banquete: a
eucaristia que ele aproveitou para fazer o sacramento de sua permanência entre
nós, expressão máxima da encarnação: Comer, uma coisa tão banal e ao mesmo tempo
tão sagrada.
A bíblia costuma comparar a felicidade do Reino de
Deus com um banquete onde haverá muita fartura: carnes gordas, bons vinhos
...etc. É que a vida do povo era muito dura e a comida rara. Daí o sonho de
felicidade expresso em comida. Em Israel comia-se uma vez por dia, à noite,
isto quando o chefe de família encontrava trabalho e pagamento.
A Leitura de hoje fala de um grande banquete
que Deus vai organizar um dia, no fim dos tempos. Será o banquete
messiânico. O profeta diz que o cardápio será sofisticado: iguarias finas,
carnes saborosas e variadas e vinhos finos: todos os povos serão convidados:
amigos e inimigos; será uma confraternização. A vitória a ser
comemorada será a destruição da morte para sempre porque todas as
lágrimas serão enxugadas (v.8). Não se trata aqui da morte física, mas de tudo
aquilo que para o homem é morte e derrota.
O banquete será animado com músicas, cantos e danças. Com a vinda do Messias qualquer situação de “morte” será transformada. Haverá somente alegria, felicidade. Será a festa, o banquete do Reino.
Segunda leitura (Fp 4,12-14.19-20)
Paulo escreve novamente aos filipenses para
manifestar sua profunda amizade e gratidão pelo apoio que esta comunidade lhe
deu na evangelização ajudando-o a viver na pobreza e na riqueza , na fartura e
na fome, na abundância e na indigência (v.12).
Os que dedicam sua vida à pregação do Evangelho
continuam sendo homens sensíveis às ingratidões, como também às manifestações
de apreço e de amizade. Sobretudo quem renunciou, por amor ao Reino, à formação
de uma família própria, sente profundamente esta necessidade de afeto. Daí o
afeto de Paulo pela comunidade dos filipenses.
No fim da carta (v.19) Paulo afirma que Deus ama e protege os seus enviados e recompensará com abundância os gestos de generosidade manifestados em relação a eles ( “quem apoia um profeta terá a recompensa de um profeta”).
Evangelho (Mt 22,1-14)
Este texto retrata mais uma parábola onde
comparecem diversos personagens: O grande rei, a esposa, o filho que
celebra o casamento, o banquete, os servos, os primeiros convidados, as pessoas
recolhidas pelas estradas, a cidade destruída, a veste nupcial.
Estes personagens estão a serviço do Reino de Deus
comparado a uma festa de casamento.
O GRANDE Rei é Deus. Ele organiza a
festa de casamento de seu filho (JESUS).
A esposa é a humanidade inteira, ou “ a Igreja”. A
esposa será bonita, simpática, atraente,
muito prendada? Comparada à humanidade talvez não. Entretanto Cristo a ama da
mesma forma. Ele sabe que seu amor terá o poder para transformá-la, para
deixá-la bonita e atraente.
O banquete representa a felicidade dos tempos
messiânicos. Quem acolhe a proposta do Evangelho começa a fazer parte do Reino
de Deus e experimenta a alegria mais pura e profunda.
Na Bíblia o Reino de Deus não é comparado a uma
capela onde todos rezam, em silêncio e devoção: não é comparado a um daqueles
conventos antigos de freiras, onde não se escuta o menor ruído, onde ninguém
perturba a meditação e o êxtase das irmãs. Está escrito que é semelhante a um
banquete, onde se come e se bebe com os amigos, se dança, se ri, se contam
histórias, causos e piadas e todos se sentem felizes juntos.
O banquete eucarístico que celebra a comunhão entre
Cristo e a Igreja deveria deixar os participantes da missa alegres,
sorridentes e serenos, o que infelizmente nem sempre acontece.
O banquete está preparado. O anfitrião envia
os servos a levar o convite aos convidados. Os servos estão divididos
em três grupos. Os primeiros dois representam os
profetas do Antigo Testamento, até João Batista. Estes cumpriram a missão de
preparar Israel para receber Jesus como Messias.. O terceiro grupo
representa os apóstolos e todos nós.
Os convidados recolhidos ao longo dos caminhos e
pelas praças e favelas bons e maus, limpos ou sujos, sem distinção, são
os homens do mundo inteiro. Volta aqui o tema muito simpático para Mateus: A
Igreja, o povo de Deus, é composto por gente boa e por gente má, é um campo
onde encontramos o trigo e a cizânia, é uma rede que apanha todas as espécies
de peixes.
Para nós esta parábola é um convite para abrir o
coração e as portas das nossas comunidades a qualquer tipo de pessoa, aos
pobres, aos marginalizados, a quem é rejeitado por todos.
Os primeiros convidados não entram
na festa. Recusam-se porque não querem largar os próprios interesses,: a
lavoura, os negócios(v.5). Não precisam que ninguém lhes ofereça um banquete:
têm tudo o que lhes possa garantir uma vida sem problemas. Estão satisfeitos. Representam
os guias espirituais de Israel que se sentem satisfeitos com a estrutura
religiosa que amontaram e que lhes dá segurança.
Os que não são pobres, os que não querem abandonar
as próprias garantias materiais e espirituais, que não têm fome e sede de um
mundo novo, não entrarão jamais no Reino de Deus, ficarão satisfeitos com as
mesquinharias nas quais estão envolvidos. Somente os pobres estão em condições
de entender a gratuidade do amor de Deus em relação a eles. Em meio ao banquete
acontecem dois acontecimentos: a destruição da cidade e a veste nupcial.
São elementos estranhos introduzidos por Mateus: a
destruição da cidade e a veste nupcial. São pormenores estranhos que acabem com
a festa. A destruição se refere à destruição de Jerusalém que acontecerá 40
anos mais tarde. Mais escandalosa ainda
é a falta de veste nupcial. Como
estranhar que alguém não tenha a veste
nupcial, quando foram catadas pelos caminhos, favelas. Como entender a bondade
do rei que convidou todo mundo com o castigo cruel para com esta pessoa? Que Mt
nos desculpe ,mas esta foi uma gafe do evangelista. Foi uma bricolagem... Os
dois pormenores: a destruição da cidade e a parábola da veste nupcial por certo
tem um sentido, mas estão fora do contexto
A destruição da cidade é um pormenor acrescentado
por Mateus e que não tem nada a ver com o banquete. Está fora do lugar:
refere-se à destruição de Jerusalém que acontecerá 40 anos depois e foi interpretado pelos cristãos como
castigo porque esta cidade não acolheu o Messias.
E a veste nupcial? ´E estranho. Como
exigi-la de pessoas recolhidas pelos caminhos, pelos campos, pelas
praças, esfarrapados.... É uma outra parábola, que tem um ensinamento
exclusivo. Está fora do contexto. Foi outra “gafe” de Mateus inseri-la
aqui, pois estraga tudo....
Pior ainda é o castigo infligido ao homem que não tinha
a veste nupcial: são expressões próprias de Mateus que gosta de fazer
“terrorismo pastoral” à semelhança dos pregadores de seu tempo.
Afastemos de nós a concepção de um Deus que
castiga. Ele não é assim: Não é como o homem, suscetível que se irrita se ofende e se vinga. Ele não castiga
nunca, não castiga ninguém, somente salva. Assim também a última frase
“(muitos, isto é todos, são chamados,
isto é todos, mas poucos os escolhidos”, não está relacionada com as duas
parábolas precedentes; nelas os eleitos são muitos, quase todos, e poucos
(somente um) é rejeitado. Estamos diante de uma frase que Jesus pronunciou em
outra ocasião.
Aliás há dois tipos de religião: a religião do medo
e do interesse: as pessoas rezam para
serem protegidas de castigos ,desgraças, invejas ou então rezam para
conseguir favores de Deus: sorte, boas colheitas passar no exame, emprego, ganhar
na loterias....etc. Isto tudo é ilusão. Ópio. Einstein diria : “se somos
religiosos ou por medo ou por interesse,
somos uns pobres coitados”. O outro tipo de religião é a religião filial, voltada para Deus e não para nós: A primeira função da oração é receptiva: acolher
o dom de Deus, o dom da vida , da Palavra de Deus, dos sacramentos; a segunda
função é partilhar a experiência de Deus com palavras e gestos:
e a terceira função é o louvor e a ação de graças.
Termino com uma
frase de Sta. Tereza: “Não me permitas, Senhor, temer-te por causa do o
inferno nem procurar-te por procurar-te por causa do céu, mas somente amar."
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